Geral Artigo
PARABÉNS, CAMPO GRANDE — UMA CIDADE QUE MERECE RESSUSCITAR
Artigo de opinião para o aniversário de Campo Grande — 26 de agosto
25/08/2026 06h00
Por: Lucio Ferrari

Neste 26 de agosto, Campo Grande receberá as homenagens de sempre. Discursos, fotografias, mensagens oficiais e declarações de amor à Capital vão ocupar as redes sociais.
Mas talvez o maior respeito que se possa demonstrar por uma cidade em seu aniversário seja ter coragem de olhar para aquilo que não está funcionando. E, hoje, é impossível olhar para o coração de Campo Grande sem fazer uma pergunta incômoda: o que fizeram com o nosso Centro?
Durante décadas, o Centro foi muito mais do que uma localização geográfica. Foi ponto de encontro, referência comercial, endereço de famílias, escritórios, lojas e serviços. Era onde Campo Grande acontecia. Hoje, em vários trechos, a paisagem é outra: portas fechadas, imóveis vazios e uma sucessão de placas de “ALUGA-SE” e “VENDE-SE”. O problema deixou de ser uma impressão isolada e passou a fazer parte da conversa cotidiana de quem ainda insiste em trabalhar e investir na região.

O esvaziamento não pode ser explicado por uma única causa. As cidades mudam, novos bairros surgem, shopping centers e corredores comerciais descentralizam o consumo. Mas isso não absolve o poder público de avaliar os efeitos de suas escolhas. Quando comerciantes começam a abandonar uma região histórica, quando empreendedores preferem bairros distantes e quando imóveis permanecem vazios, a administração municipal precisa perguntar por quê — e responder com resultados, não apenas com slogans.
O chamado Reviva Campo Grande nasceu carregando justamente a promessa de devolver vitalidade ao Centro. Revitalizar, porém, não é simplesmente trocar piso, reformar calçada, plantar árvores ou produzir uma nova identidade visual. Revitalização de verdade precisa ser medida por gente circulando, comércio vendendo, imóveis ocupados, segurança, acessibilidade e novos investimentos privados. Se depois da intervenção o empresário continua olhando para a porta vazia de sua loja, há uma diferença enorme entre a obra entregue e a cidade efetivamente revivida.

A Rua Rui Barbosa tornou-se um símbolo dessa discussão. Intervenções de mobilidade e a implantação de estruturas voltadas ao transporte coletivo modificaram profundamente a dinâmica do eixo. Há comerciantes que associam essas mudanças à redução de acessibilidade e de movimento em determinados trechos. Uma política de transporte público é necessária, evidentemente. Mas política urbana responsável precisa conciliar ônibus, pedestres, automóveis, carga e descarga, estacionamento, moradores e atividade econômica. Quando uma intervenção produz efeitos adversos, insistir que o projeto é um sucesso porque a obra fisicamente existe não resolve o problema de quem perdeu clientes.

Há ainda uma transformação silenciosa: o comércio está seguindo o consumidor para os bairros. Negócios que antes buscariam naturalmente o Centro hoje encontram alternativas em outras regiões. O resultado é um círculo perigoso: menos comércio gera menos circulação; menos circulação reduz a atratividade; menor atratividade aumenta a vacância; imóveis vazios reforçam a sensação de abandono. Romper esse ciclo exige estratégia econômica urbana — não apenas manutenção.
E existe uma face muito mais dolorosa dessa crise. O Centro tornou-se também ponto de concentração de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Entre elas estão jovens que aparentam carregar no rosto décadas que ainda não viveram. O uso problemático de álcool e outras drogas, somado à vida nas ruas, à alimentação precária, à exposição ao tempo e à ausência de cuidados contínuos, pode produzir uma aparência brutalmente envelhecida. É uma imagem perturbadora: pessoas muito jovens com feições castigadas como se fossem idosos.

Usar a expressão “asilo de jovens” é deliberadamente chocante, mas ela traduz uma contradição que deveria constranger qualquer administração pública: justamente aqueles que deveriam representar o futuro parecem abandonados à própria deterioração no coração da cidade. Essas pessoas não são decoração desagradável que possa ser simplesmente removida para outra rua. São seres humanos que precisam de assistência social, saúde, tratamento, acolhimento e políticas públicas capazes de reconstruir autonomia. Ao mesmo tempo, comerciantes e moradores têm direito à segurança e à utilização do espaço público. Uma política séria precisa proteger ambos.

É justamente aí que a palavra “revitalização” revela sua fragilidade. Não existe Centro revitalizado quando a calçada é reformada, mas a crise humana permanece diante da vitrine.
Não existe revitalização quando o empresário perde confiança. Não existe revitalização quando a população deixa de frequentar determinada região. E não existe revitalização sustentável se o poder público tratar segurança, assistência social, saúde, mobilidade, limpeza urbana e desenvolvimento econômico como problemas separados.
A gestão municipal deve ser cobrada por isso. A prefeita Adriane Lopes ocupa o cargo máximo do Executivo municipal e, portanto, deve responder politicamente pelos resultados de sua administração. Isso não significa transformar crítica política em acusação criminal. Significa algo muito mais elementar em uma democracia: quem governa precisa explicar prioridades, decisões, resultados e falhas. O contribuinte não é obrigado a aplaudir uma política pública simplesmente porque ela recebeu um nome bonito.

Da mesma forma, controvérsias, denúncias e investigações envolvendo obras, contratos ou agentes públicos precisam ser tratadas com transparência e rigor, respeitando-se a presunção de inocência e o resultado das apurações competentes. Em vez de reproduzir acusações não comprovadas como fatos, a cobrança jornalisticamente responsável é objetiva: que documentos sejam públicos, que as autoridades respondam aos questionamentos e que eventuais responsabilidades sejam apuradas até o fim. Silêncio institucional nunca é substituto para prestação de contas.

Enquanto a política discute versões, o comerciante trabalha com números. Ele sabe quantas pessoas entram em sua loja, quanto vendeu no mês, quantos imóveis vizinhos fecharam e quanto custa continuar aberto. É esse termômetro que precisa ser ouvido. A revitalização que importa não cabe apenas em relatório de obra: aparece no caixa das empresas, no número de empregos, na ocupação dos imóveis e na disposição de alguém investir o próprio dinheiro naquele endereço.
Alguns dos polos que ainda atraem fluxo para a região central estão ligados a instituições de serviços, educação, cultura e comércio, entre elas estruturas do Sistema S, como Sesc e Senac.
Isso mostra que equipamentos capazes de gerar programação, serviços e circulação podem contribuir para manter pessoas no Centro. Mas uma região inteira não pode depender de poucos polos para respirar. É necessário reconstruir um ecossistema urbano.

Campo Grande precisa discutir incentivos para ocupação de imóveis vazios, estímulo a novos negócios, moradia no Centro, estacionamento e acessibilidade, segurança permanente, iluminação, limpeza, calendário cultural, fiscalização, tratamento adequado da população vulnerável e integração efetiva do transporte coletivo com a atividade econômica. Precisa, sobretudo, conversar com quem está no Centro todos os dias — e não apenas apresentar projetos prontos a quem sofrerá seus efeitos.

O aniversário da cidade é, portanto, uma oportunidade para abandonar a maquiagem institucional. Parabéns, Campo Grande, pelos que construíram sua história. Parabéns aos comerciantes que abrem suas portas mesmo quando a rua parece desistir deles. Parabéns aos trabalhadores que continuam chegando cedo. Parabéns a quem preserva prédios, memórias e negócios quando seria mais simples partir.
Mas à administração pública não cabe apenas receber parabéns. Cabe receber cobrança. Se o Centro está perdendo empresas, população, segurança percebida e capacidade de atrair investimentos, a pergunta não pode ser silenciada por propaganda. O Reviva precisa provar que reviver é verbo e não marca.

Talvez a ironia mais amarga deste aniversário seja justamente essa: Campo Grande não precisa de mais uma cerimônia dizendo que seu Centro está vivo. Precisa fazê-lo viver. Porque uma cidade não morre quando um prédio fecha. Morre aos poucos, quando ninguém mais acredita que vale a pena abrir outro no lugar.

Parabéns, Campo Grande. Você merece muito mais do que sobreviver. Merece ressuscitar — não dos mortos, literalmente, mas do abandono, da descrença, das vitrines vazias e da resignação. E que no próximo aniversário o presente não seja outra promessa de revitalização.
Que sejam ruas ocupadas, empresas abertas, jovens recuperando suas vidas e um Centro que volte a ser, de verdade, o coração da cidade.

Por Marcelo Yukio Shiraishi